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Fundamentos

Reiki é religião? O que a prática tem — e o que não tem — de religioso

Por Ana Cristina Costa · · 5 min de leitura

Não. O Reiki não é religião: não tem divindade própria, não tem culto, não tem livro sagrado, não tem clero e não pede filiação nem conversão. É uma prática de imposição das mãos criada no Japão por Mikao Usui no início do século vinte, transmitida por iniciação e organizada em torno de cinco princípios de conduta. A própria formação ensina que o Reiki não conflita com nenhuma crença — está listado entre as sete características oficiais da prática, ao lado de segura, natural e complementar. Isso não significa que ele seja neutro em relação ao espiritual: o vocabulário fala em energia universal, em sagrado, em essência. Mas fala num registro que não exige adesão a doutrina alguma. Quem chega com uma religião permanece com ela. Quem chega sem nenhuma não precisa adotar uma para praticar.
Neste artigo

Essa pergunta chega quase sempre do mesmo jeito: em voz baixa, com um pedido de licença antes. "Desculpa, mas eu sou católica — eu posso?"

Pode. E vale explicar por quê, com calma, porque a pergunta é legítima e merece mais que um "pode sim".

De onde vem o Reiki?#

O Reiki foi criado no Japão, no início do século XX, por Mikao Usui. A tradição situa a origem do método numa retiro de meditação e jejum no Monte Kurama, perto de Quioto, onde Usui teria recebido a compreensão do sistema que depois passou a ensinar.

De Usui o método chegou a Chujiro Hayashi, médico da marinha japonesa, que organizou a prática clínica e as posições de mãos. De Hayashi chegou a Hawayo Takata, nascida no Havaí, que levou o Reiki às Américas e formou os mestres que espalharam a prática pelo Ocidente.

Repare no que essa história não tem: nenhuma revelação divina exclusiva, nenhuma fundação de igreja, nenhuma exigência de fé. Tem um homem, uma prática e uma linhagem de professores. É por isso que o Reiki se transmite como se transmite um ofício — de mestre para aluno —, e não como se transmite uma doutrina.

Preciso acreditar em alguma coisa para receber Reiki?#

Não. E isso incomoda quem espera que a resposta seja sim, dos dois lados: incomoda quem gostaria que o Reiki fosse um ato de fé e incomoda quem gostaria de descartá-lo como tal.

A prática não pede crença prévia, não pede oração, não pede declaração de nada. Uma sessão consiste em ficar deitado, vestido, enquanto alguém posiciona as mãos sobre ou próximo ao corpo. O que se pede é disponibilidade para ficar quieto por uma hora — o que, para muita gente, já é o mais difícil.

Tenho uma religião. Posso praticar?#

Sim, e é o caso da maioria das pessoas que passam pelas nossas turmas.

Sou católico ou cristão#

O Reiki não pede que você reze para nada nem para ninguém, e não substitui nenhuma prática da sua fé. Há cristãos praticantes que descrevem o Reiki como uma forma de cuidado com o corpo e com a presença — no mesmo registro em que se pensa o silêncio, o descanso ou o cuidado com quem está doente.

Também é honesto dizer que existem posições institucionais restritivas dentro de algumas tradições cristãs. Elas existem, são conhecidas e não cabe a um instituto de Reiki disputá-las. Se essa for uma questão para você, é uma conversa para ter com quem acompanha a sua fé — não conosco.

Sou evangélico#

Vale o mesmo. A prática não envolve invocação, não envolve entidade e não envolve nenhum elemento de culto. O vocabulário espiritual que aparece na formação — "energia universal", "sagrado" — não nomeia nenhuma divindade específica.

Sou espírita, umbandista ou de tradição afro-brasileira#

O Reiki convive bem com essas tradições e é comum encontrar praticantes vindos delas. Ainda assim, o Reiki continua sendo outra coisa: não é mediunidade, não é passe, não é incorporação. É imposição de mãos com um método próprio e uma linhagem própria.

Sou ateu ou agnóstico#

Também pode. A parte da formação que trata de conduta — os cinco princípios — é ética prática, não teologia. E a parte que trata de técnica é técnica.

Por que então se fala em "energia universal" e em "sagrado"?#

Porque o vocabulário veio do japonês, e porque a prática nasceu num contexto cultural em que corpo, mente e espírito não eram compartimentos separados.

Rei costuma ser traduzido como energia universal; Ki, como energia vital individual. É o mesmo Ki de outras práticas japonesas, o mesmo Qi do chinês, o mesmo prana do sânscrito. São palavras de tradições que descrevem o corpo em termos de fluxo e de vitalidade.

Chamar isso de premissa da tradição é mais honesto do que apresentá-lo como física. O Reiki opera dentro de um sistema de ideias — como a acupuntura opera dentro do dela — e é assim que ele deve ser apresentado.

O que o Reiki pede de você#

Menos do que se imagina. Ele pede presença, constância e uma certa disposição de cuidar de si sem pressa.

E pede também um limite, que a própria formação ensina antes de qualquer técnica: o praticante não é um intermediário privilegiado de nada.

O reikiano não é anjo e nem tem superpoderes — é um canal.

Nenhuma religião precisa ser trocada por essa frase. É por isso que a pergunta do título tem uma resposta curta.

Fontes e referências

  • OMS (2007) recomendou o Reiki como modalidade de tratamento sem uso de medicamentos.
  • Portaria MS 971 (2006) instituiu o Reiki na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC).
  • Portaria MS 145 (2017) o Reiki passou a ser oferecido no SUS.
  • CBO 3221-25 ocupação de terapeuta holístico reconhecida pelo Ministério do Trabalho.
  • CNAE 8690-9/01 atividade de práticas integrativas e complementares em saúde humana, que cita o Reiki nominalmente (CONCLA/IBGE).

O Reiki é uma Prática Integrativa e Complementar em Saúde reconhecida pelo Ministério da Saúde (PNPIC). Não substitui diagnóstico, tratamento ou acompanhamento médico ou psicológico.

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